segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sobre o mito de o brasileiro ler pouco e o mimimi da cultura ser só o que você gosta.

Poucas coisas me irritam tanto quanto o famoso senso comum. Antes eu tentava ver o "lado bom": calma, não é todo mundo que pensa assim, é só uma minoria conservadora que quer ditar regra pras pessoas todas, mesmo que cada uma seja diferente na sua essência e na sua cultura. 

Afinal, uma maioria não deve achar que é superior só por que lê Dostoiévski e escuta Mozart, por exemplo, né?

SIM, ACHA. O PIOR É QUE ACHA.

Desse pensamento superior, começam a vir as frases manjadas, tais como :


  1. "brasileiro é ignorante, só curte essa merda de funk"; 
  2. "brasileiro não tem cultura, só quer saber de carnaval"; 
  3. "brasileiro não lê nada, só querem saber de novela"; 
  4. "olha essa menina rebolando até o chão, ler um livro não quer"; ou 
  5. "se ela tem mais livros do que sapatos, case-se com ela".




Gente?????! Pra quê??? Parem com isso! Tá feio!



Primeiro: qual o problema de a pessoa gostar de funk? É um estilo musical como qualquer outro! E não me venham dizer que só tem letras "que subjugam a mulher", porque o funk não é só o proibidão, viu?! Têm muitos que possuem uma denúncia social, representatividade na periferia, etc. Sem falar que: quem ouve rock não pode reclamar de letras com "subjugação da mulher" né? Só um pouquinho, vamos ter o mínimo de noção!


Letras do AC/DC que o digam né? Super fofas, sem nada promíscuo ♥


Segundo: carnaval é uma festa histórica e cultural! É parte da cultura do nosso país, é arte. Mesmo quem não gosta (como eu, que não sou muito fã) TEM QUE respeitar. Não é por que não te agrada que é ruim e/ou inferior ao que você, o bonzão dono da verdade, curte. 
"Ai mas e aquelas mulheres quase sem roupa rebolando?! Uma vergonha!" As moças dançando na baladinha que você não perde no fim de semana vão com burca se divertir, né?! Tá bom.
Parem com esse negócio de Brasil não ter cultura. O Brasil é diverso e múltiplo e possui várias culturas misturadas, lindas e únicas. Que tal parar de venerar só o que vem dos EUA e procurar a beleza por aqui também? ♥

Qual a diferença entre o carnaval e baladinha de vocês? Não achei.


Terceiro: As pessoas leem, sim! Não é por que você não as vê com um Guerra e Paz na mão no meio do ônibus que elas não leem! Não é por que elas não leem um livro propriamente dito que elas não leem! Se vocês pararem pra observar, em qualquer lugar que a gente vá, tem algumas ~várias, né~ pessoas que não desgrudam do celular. Bem ou mal, elas estão lendo o tempo todo. Quando você conversa com alguém via Whatsapp, E-mail, Facebook, você está lendo e escrevendo. O tempo todo. Há pessoas que gostam de ler aquelas páginas do facebook com textos sentimentais; há pessoas que, sei lá, leem fanfiction nos celulares, leem a Zero Hora on-line; leem! Por que isso é considerado como ~não-leitura~ pela maioria? As pessoas hoje leem muito mais do que antigamente, o acesso à informação é muito maior, graças a era digital.



Quarto: A menina não pode gostar de ler e também gostar de dançar?! Não entendi direito. Ou ela não pode gostar de dançar funk porque, no pré conceito de vocês, é inferior às musiquinhas pop da Britney Spears que toca na baladinha de classe média? Ou só pode gostar de dançar se souber os passos lentos para acompanhar o jazz do Frank Sinatra? Ué!
Que mania de rotular tudo! Se a pessoa rebola, é burra? Se a pessoa lê, é culta? Mas e se ela quiser fazer as duas coisas e não ter absolutamente rótulo NENHUM?
Além de tudo isso, ainda tem a questão de que, dependendo do livro que a pessoa estiver lendo, ela vai ser julgada por isso. 
"Meu Deus, olha lá, lendo livro da Kéfera! Isso devia ser jogado no lixo, não é literatura!"
Não aguento mais. Economizem eu e esse ursinho exausto, pls!


Tudo bem, de repente não é literatura de fato, mas vocês esquecem que ninguém começa lendo Proust, Dostoiévski e Tolstói. As pessoas começam com livros de fácil acesso, que seja do gosto delas e que sirvam ao que elas estão procurando. Ninguém pega o gosto por leitura lendo um livro que não entende a metade. Em fase inicial, a leitura deve ser um livro fácil, e adivinha?! Os livros da Kéfera, ou do Youtuber que for, servem pra isso. Talvez seja um desses livros que faça um adolescente querer ler e mais e mais. E aí, se a gente julgar por ele estar lendo, será que ele vai se sentir encorajado para ir atrás de outras coisas que também goste? É claro que não, né?
Literatura deve ser o que a pessoa goste, entenda e fique feliz lendo. por trazer alguma coisa de útil para a vida dela. Fim. Pra que complicar? Por que tudo tem que ser erudito pra ser bom?



Parem, galera.




Quinto: Novamente a rotulação! Eu amo sapatos e amo livros, mas acho que tenho mais sapatos. Sabem o que isso define? Nada, nadinha, coisa nenhuma! A quantidade de livros que uma pessoa tem não define quantos livros ela leu ou quantas coisas ela tirou de bom das leituras que fez (sabemos que muita gente tem livro só pra encher estante, né?! Para fazer uma média e pagar de cult. Pois é). Agora, pensem comigo, sapatos são, de alguma forma, essenciais. Não podemos sair de casa sem sapato. Vai ver você trabalha com algo muito formal e precisa de muitos sapatos. Vai ver você só gosta de gastar o seu dinheiro em sapatos mesmo. E daí?! Por que isso, na mente de alguns, te faz mais inferior do que quem gasta mais dinheiro em livros? Não dá pra entender, gente! Não dá.

Resumindo: deixem as pessoas curtirem o carnaval, deixem as pessoas curtirem os livros da Kéfera, os livros de Crepúsculo, os livros do Paulo Coelho, os textões do facebook, as correntes do Whatsapp! 

Leitura é leitura, e leitura é conhecimento! 





Essa batalha de ego não ajuda em nada, só atrapalha, amiguinhos! É por isso que tanta gente acha a literatura uma coisa inalcançável! Por essa elitização que fazem, às vezes sem nem pensar. Que tal repensarmos antes de criticar/julgar/humilhar algo/alguém? O mundo seria bem melhor assim!  ♥


Lembrando sempre que: conhecimento é para ser compartilhado com as pessoas em benefício delas, não para ser usado para humilhá-las para sentir seu ego inflado! 



2 comentários:

  1. Olá!
    Tudo o que você mencionou cai na categoria preconceito e seria facilmente resolvido se cada um cuidasse da própria vida. Eu, por exemplo, não curto funk e adoro samba e carnaval. Isso se chama gosto pessoal, não impede e nem torna errado que outra pessoa ame funk.
    Em relação aos livros, minha única ressalva é que no Brasil, mesmo com os digitais, continua muito caro e sobretaxado.
    Beijos!
    Gatita&Cia.

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    1. Sim, quanto aos livros é verdade. Muita gente não tem acesso a eles por conta do preço elevado.

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